Parte II: O importante papel da escola na socialização e moralidade da criança

A escola maternal também fornece à criança a companhia de outras da mesma idade. É a primeira experiência da criança como participante de um grupo de iguais e, portanto, cria-lhe a necessidade de desenvolver a capacidade de relações harmoniosas em tal grupo. (Winnicott 1957/1982, p.222)

Socialização

A introdução gradual da criança em grupos (família extensa, vizinhança, pequenos grupos de amigos e a escola), segundo Winnicott (1965/2011), é a melhor forma de apresentação da realidade externa. Podemos dizer que se trata da continuidade da apresentação do mundo em pequenas doses.

É preciso considerar que no processo de socialização da criança pequena, esta ainda não consegue dar conta de três tarefas psicológicas, como Winnicott (1957/1982) observa. Isto é, no início, as crianças estão elaborando uma concepção delas próprias como um EU que, aos poucos, se relaciona com um ambiente que começa a se apresentar e a ser visto/sentido enquanto “separado”. Assim, inicia um relacionamento com a mãe que passa a ser uma pessoa diferente dele mesmo e, por último, se relaciona com outras pessoas além da mãe, por exemplo a professora e os diversos membros da comunidade escolar. É possível, então que apareçam sentimentos de ciúmes e demore um tempo até que a criança consiga ceder a professora às outras crianças. Esta capacidade se desenvolve à medida que a criança avançou em direção à relações em que diversas pessoas estão envolvidas e se sente segura para tal.

Semelhante ao papel da mãe, a escola demonstra uma espécie de amor quando alimenta e cuida da higiene da criança. Desse modo, não se pode estabelecer na escola maternal protocolos impessoais ou mecânicos, pois isto poderá significar para a criança hostilidade ou indiferença. A criança pequena está no processo de formação de sua personalidade e integrando-se no sentido de construir uma unidade. Desta maneira, não se pode prescindir de relações pessoais no tratamento das crianças, como conhecê-los pelo nome, saber seus gostos e preferências. Em casos favoráveis, a criança então passa a sentir-se segura na sua individualidade e começa a procurar e aderir às atividades grupais. (Winnicott, 1957/1982)

Moralidade

Quando pensamos sobre os impulsos instintuais e o processo de construção da moralidade da criança, a escola também tem papel fundamental. Quando tudo correu bem, a criança em idade maternal já iniciou o processo de concernimento, mas ainda não possui uma capacidade plenamente estabelecida para amar e odiar a mesma pessoa. Ela possivelmente está começando a sentir-se concernida diante da sua agressividade. A escola tem a importante possibilidade de continuar auxiliando a criança neste percurso, por exemplo, por meio debrincadeiras construtivas e estabilidade das pessoas que ali trabalham e, desta maneira, “habilitam cada criança a descobrir um modo de enfrentar a culpa que pertence aos impulsos agressivos e destrutivos”. (Winnicott 1957/1982, p. 218). 

Sobre as brincadeiras na escola e sua relação com a moralidade, temos que lembrar que alguns lares impossibilitam que a criança seja natural e ponha em prática sua agressividade. Não permitem barulhos, sujeiras etc. Ou seja, o espaço físico da escola também é um ambiente que possibilita saúde nas crianças, pois estas têm a chance de explorar e viver impulsos agressivos e destrutivos sem que sejam punidas ou cerceadas.

As escolas maternais, para essas crianças, são um lugar em que elas podem, por algumas horas, diariamente descobrir a extensão de seus próprios impulsos, e assim se tornarem mais capazes de lidar e sentir menos medo deles. Não é necessário nenhum entendimento psicológico especial para este trabalho, mas é necessária uma grande tolerância, o que não é fácil de encontrar nas pessoas. (Winnicott, 1997, p.81)

Ainda sobre a importância das brincadeiras na escola, vale ressaltar que Winnicott explorou bastante o brincar infantil quando construiu o conceito de espaço potencial, a terceira área do viver na qual se localiza a experiência cultural e o brincar criativo. Assim, a escola tem a tarefa de continuar criando condições para o que é intermediário entre o sonho e o real, entre o mundo subjetivo e a realidade externa, o individual e o grupal. 

É especialmente neste setor que a escola maternal pode fomentar o enriquecimento e ajudar a criança a encontrar uma relação operante entre as ideias que são livres e o comportamento que precisa tornar-se relacionado com o grupo. (Winnicott, 1957/1982, p.219)

A importância dos primeiros anos de vida na escola maternal são fundamentais para a criança posteriormente se desenvolver cognitivamente, enriquecendo-se com os legados da cultura e podendo contribuir com a mesma. 

Referências

D. W. WINNICOTT. A criança e o seu mundo (1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

D.W. Winnicott. A família e o desenvolvimento individual (1965). São Paulo: Martins Fontes, 2011.

D.W. Winnicott. Pensando sobre crianças. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

Escrito por:

Isabel Valli Espíndola

@isabelvalli.psicologa

CRP 12/2184

(11) 989213706

isabelvallipsi@gmail.com

 

 

 

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