Naninhas, ursinhos, fraldinhas… A importante função dos objetos transicionais na vida dos bebês

Você que vive ou já conviveu com bebês e crianças pequenas certamente já observou o “apego” que algumas delas demonstram com seus paninhos, chupetas, ursinhos ou naninhas. Você já imaginou o que aquilo pode significar para eles? Ou a importância disso na vida psíquica do bebê?

Donald Winnicott foi o teórico que melhor desenvolveu o conceito de “objeto transicional” e com isto, nos mostrou a fundo e detalhadamente os processos que a criança passa ao longo do seu amadurecimento. Elsa Dias em seu livro “A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott ” nos mostra com muita clareza os detalhes de cada etapa do amadurecimento dos seres humanos a partir da teoria winnicottiana.

Se você observar um pouco de perto, ou se você foi ou é mãe/pai, verá que um bebê, até mais ou menos 3 meses, é extremamente dependente dos cuidados maternos (aqui o bebê ainda não diferencia mãe e pai, então podemos falar que ele é dependente do ambiente). Alimentação, sono, cuidados de higiene, tudo que o bebê precisa está sob os cuidados de outrem. Conforme ele cresce, vai percebendo que ele é “alguém separado” deste ambiente que cuida dele. Assim, começa a estabelecer certas relações com o ambiente e constitui o que Winnicott chamou de um “si-mesmo primário”. Isto acontece porque a mãe, ou o ambiente que cuida do bebê, começa a apresentar algumas “falhas”, isto é, começa a não atender tão prontamente aos pedidos do bebê pois este já começa a tolerar algum atraso ou demora. Aqui é sempre importante sinalizar que não são falhas “programadas” ou “conscientes”, isto é, a mãe não deixa propositalmente o bebê chorar porque acha “saudável” ou porque “pode acostumá-lo mal” caso o atenda imediatamente, não tem nada de saudável deixar um bebê chorar por mais tempo que ele pode suportar, pois ainda estamos falando de um ser bastante dependente destes cuidados e ainda bem incipiente na passagem da dependência absoluta para a relativa. Poderá haver consequências futuras caso o bebê fique desassistido por um tempo maior do que o suportado por ele. 

Então é exatamente sobre este início do contato com a realidade, agora já começando a ser percebida como externa à si mesmo, que iremos desenvolver aqui.

Por volta dos 8 ou 10 meses, o bebê já começa a observar as falhas da mãe/ambiente, e para lidar com a tensão e a angústia que isto lhe provoca, elege alguns objetos que lhe proporcionam calma e tranquilidade. Podem ser: naninhas, ursinhos, e até mesmo as chupetas. Tais objetos se tornam, por vezes, indispensáveis nos momentos de tensão e angústia, na preparação para o sono ou quando a mãe se ausenta mais prolongadamente, exercendo uma função de amparo para o bebê. Inaugura-se aqui uma quebra da unidade mãe-bebê. Segundo Dias, é exatamente neste espaço entre mãe-bebê que entra o objeto transicional que, ao mesmo tempo, simboliza separação e união.

Winnicott (1988/1990) define objetos transicionais ou primeira possessão, como “um objeto que o bebê criou ainda que, ao mesmo tempo em que nós assim dizemos, na realidade sabemos que se trata da ponta de um cobertor ou da franja de um xale ou de um brinquedo.” (p.126) Fenômenos transicionais são sintetizados por ele como “as técnicas empregadas nessas situações” (p.126). O bebê pode manipular um cobertor de maneira bem própria no momento que se prepara para dormir, por exemplo.

Em seu artigo “Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais”, Winnicott (1971/1975) nos aponta algumas qualidades do objeto transicional: o objeto é acariciado, amado e mutilado (e deve sobreviver);  o objeto não deve ser alterado por ninguém, somente pelo bebê; o objeto deve ter características que pareçam mostrar que tem uma vitalidade ou realidade próprias (maciez, por exemplo); o destino do objeto deve ser relegado ao limbo, não sendo entretanto esquecido, mas como os fenômenos transicionais se tornam difusos ou estendidos à todo o território cultural, o objeto em si perde seu significado. A partir daí o bebê vai cada vez mais se inserindo na cultura, podendo contribuir por meio de suas próprias produções. Este é o início ou os primórdios da experiência cultural e do brincar criativo que o bebê pode vivenciar.

Para finalizar, podemos então ressaltar as seguintes informações:

  • os objetos que o bebê elege são de extrema importância para seu desenvolvimento psíquico saudável;
  • permita que o bebê eleja objetos de apego, não os troque ou lave caso o bebê não permita;
  • o objeto transicional simboliza ao mesmo tempo separação e união com a mãe
  • em momentos de tensão e angústia os objetos serão uma fonte de amparo para o bebê;
  • conforme o bebê vai crescendo e se sentindo cada vez mais seguro, o objeto perde seu significado e o bebê começa cada vez mais a ter experiências culturais e o brincar criativo.

 

Escrito por Isabel Valli Espíndola

CRP 06/122184

Psicóloga clínica infanto-juvenil e adulto. 

isabelvalli.psi@gmail.com

(11) 98981-3706

 

Referências bibliográficas:

Dias E. O. (2003). O estágio da primeira mamada teórica. In E. O. Dias, A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott (pp. 164-168). Rio de Janeiro: Imago, 2003.

Dias E. O. (2003). A criatividade originária. In E. O. Dias, A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott (pp.169-173). Rio de Janeiro: Imago, 2003.

Dias E. O. (2003). O início do contato com a realidade: as relações objetais. In E. O. Dias, A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott (pp. 2013-216). Rio de Janeiro: Imago, 2003.

Dias E. O. (2003). A transicionalidade. In E. O. Dias, A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott (pp.232-142). Rio de Janeiro: Imago, 2003.

Winnicott D. W. (1964-1957). Alimentação do Bebê. In D. W. Winnicott, A criança e seu mundo. (pp. 31-36). Rio de Janeiro: LTC, 1982.

Winnicott, D. W. (1967). O conceito de indivíduo saudável. In D. W. Winnicott, Tudo começa em casa (pp. 3-22). São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Winnicott, D. W. (1967). Vivendo de modo criativo. In D. W. Winnicott, Tudo começa em casa (pp. 3-22). São Paulo: Martins Fontes, 1999

Winnicott D. W. (1971). Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais. In D. W. Winnicott, O Brincar e a Realidade (pp.13-44). Rio de Janeiro: Imago, 1975

Winnicott D. W. (1971). O Brincar. In D. W. Winnicott, O Brincar e a Realidade (pp.79-93). Rio de Janeiro: Imago, 1975

Winnicott D. W. (1987). A amamentação como forma de comunicação. In D. W. Winnicott, Os bebês e suas mães (pp. 3-22). São Paulo: Martins Fontes, 2012.

Winnicott D. W. (1988) Criatividade primária. In D. W. Winnicott, Natureza Humana (pp. 130-132). Rio de Janeiro: Imago, 1990.

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