Entrevista com Lara Rocha Andrade: Sexualidade e adolescência. “Informação é diferente de conhecimento”

Primeiro precisamos dizer que abordar um tema como este já é um enorme desafio, pois ainda vivemos um grande Tabu em torno do tema. Pois é, mas aqui teremos uma entrevista com nossa querida Lara Rocha que durante muito tempo realizou e realiza trabalhos neste campo, tanto com jovens, quanto com adultos.

Lara já inicia nossa entrevista quebrando paradigmas! Veja só:

Lara: Talvez a primeira coisa que eu tenha para pensar com vocês é essa ideia do tabu, a sexualidade como tabu.  Eu acho que isso virou muito mais um “marketing”, uma forma de divulgação e de “provocar mistério” do que necessariamente falar sobre o assunto. Sexualidade pra mim é um assunto como outro qualquer, que hoje, diferente de alguns tempos atrás, aparece nas novelas, nas músicas, nos bares, nos programas de TV, nas discussões, tá por aí. Então eu não trato mais a sexualidade como um tabu. Em algum momento eu tratei, quando eu achava que a sexualidade era um assunto que estava muito velado que as pessoas não falavam. Mas as pessoas falam o tempo inteiro, e o que a gente precisa fazer é melhor conversar com ele, trazer mais pra perto e tentar trabalhar com o que tem de ignorância, de não conhecimento com esse assunto. Deixa o tabu para outros assuntos que ainda são tabus. A sexualidade não precisa ser mais. E como ela tá sendo conversada? De que forma as informações chegam para os jovens, para os pais? Como a escola recebe esse tipo de assunto? Como nas mesas de bar esse assunto é conversado? O único cuidado para nosso trabalho é como falamos e o que se produz a partir daí.

Coletivo Ser (CS): De início gostaríamos de saber o que compreende a sexualidade, pois sabemos bem que não se trata apenas do ato sexual em si.

Lara: Justamente. Quando a gente fala de sexualidade a gente fala de sexo? Fala. A gente fala de posições sexuais? Fala. Fala de preferências? Fala. Mas a gente fala de qualidade de vida, de alimentação, costumes, valores, futebol, esportes, de vida, gênero… Apesar de serem dois temas diferentes, mas a sexualidade dialoga com gênero o tempo inteiro pra pensar questões. Todo ser humano que tá vivo, é um ser sexual, fazendo sexo, praticando sexo ou não. A grande questão é: o nome “sexualidade” é muito parecido com “sexo” e o “sexo” é um problema na sociedade. Mas a sexualidade está relacionada a todo e qualquer assunto da vida. Se tem vida, tem sexualidade. Sexualidade é o que me move, é minha potência de vida

CS: Quais são as maiores dúvidas ou dificuldades dos adolescentes no campo da sexualidade?

Lara: As maiores dificuldade é não ter com quem conversar. Eles têm muito acesso à informação e não sabem o que fazer com ela ou não podem fazer algumas coisas com ela. Então as grandes dificuldades que eles sempre trazem é: “Quem é que conversa com a gente?” Porque há um tempo atrás era proibido falar, hoje não é tão proibido assim, mas as famílias acham e delegam a função a outros. Elas dizem: “Os amigos falam isso” ou “O professor tira essa dúvida” ou “Ah, ele vai aprender sozinho, a internet ensina tudo”. Então a gente delega a um outro que, às vezes, nem sempre é um outro (internet) a função de conversar com esse jovem. Então a maior dificuldade que eles trazem é: “Não temos com quem conversar”, “Não temos com quem falar determinadas coisas”. Eu trabalho e estudo a sexualidade desde 2011, em todos esses anos, eu vejo que é crucial o diálogo. É por isso que quando um sexólogo vai pra televisão e responde as dúvidas que são entendidas como “banais”, as pessoas querem assistir, por mais que elas façam “memes”, por mais que tirem sarro, mas no fundo tem muita gente que assiste para realmente tirar dúvidas. Um sexólogo na televisão nada mais é do que alguém que pode minimamente pegar as informações que estão soltas e que estão aí desconectadas, e conectar, trazer pra perto e ir junto tirando dúvidas e conversando. Eles sabem como fazer um sexo anal direito. Eles aprendem a fazer sexo oral na internet, aprendem a se masturbar, trocam fotos, aprendem como tirar “nudes” – porque tem toda uma técnica, quem não tira de uma determinada forma, corre o risco da exposição. Só que ao mesmo tempo que eles têm muito acesso a informação, eles não sabem o que fazer com essa informação. Aí aprende na prática quebrando a cara como qualquer outra pessoa. Isso eu tenho observado inclusive no campo da educação. O acesso à internet de uma forma mais ampla, tem levado as pessoas a terem acesso à conteúdos. Então as pessoas sabem coisas de Psicologia, Administração, Direito… Os meninos que estudam em pré-vestibulares, por exemplo, aprendem (ou pelo menos têm acesso) aos assuntos de Biologia, Química, Física… Em casa! Olha a diferença entre ter acesso a informação e aprender. Isso vale também para as questões da sexualidade. Os jovens têm acesso às informações e não sabem o que fazer com isso. De dúvidas como: “Se masturbar dá espinha na cara?”; até coisas mais complexas como: o que consiste um relacionamento abusivo? O que fazer em caso de violência sexual? etc. Quando eu vou conversar com os jovens, eu não tenho isso de me preparar para um tema específico. Eles me perguntam abertamente e as dúvidas surgem. “Mulher pode ter orgasmo sonhando?”. Alguém poderia dizer: “Ah, mas isso eu acho no Google”. Ok, mas o Google não responde como a gente responde, não conversa como nós conversamos, não dialoga com as mesmas palavras, não devolve a pergunta. Google não substitui pessoas. Eu costumo muito devolver a pergunta dependendo de como é a relação com o jovem e aí trabalho junto com ele uma resposta possível. A proposta é simples: gente conversando com gente.

440724.jpg

CS: Como você consegue intervir?

Lara: Eles estão tão carentes de espaço em que esses temas possam ser conversados de uma forma aberta sem preconceito, simplesmente ouvir e tirar a dúvida, que quando eu me disponho a estar num lugar assim, eles simplesmente vão, eles bancam, eles estão junto! Por exemplo, eu tive uma roda de conversa e dentre vários assuntos que surgiram, um tema levantado foi a “calcinha fio dental”. Quem é que conversa com esses jovens sobre isso? A primeira postura de alguém … é: “ah, qual a necessidade? Esse jovem tem tanta coisa pra pensar!!” Ou seja, os adultos tendem a tirar por menos as questões que vem dos adolescentes e depois eles simplesmente delegam a outro. Então eu abro o espaço a partir da demanda dos jovens. Não consigo um diálogo com as escolas. A grande maioria das escolas não têm espaço para isso e muitas vezes são espaços bem delimitados e restritos. E mais uma vez a gente se vê de mãos atadas: como é que eu chego nos jovens? Tem uma tentativa de chegar pela internet (enquetes, ao vivo, bate-papo). A internet pode ser tanto esse lugar de dar informações quanto de conectar as informações. Eu tenho Instagram e minimamente tento fazer uma conexão de informações, mas que também é complicado, e ainda não substitui o olho no olho, quando possível.

WhatsApp Image 2018-06-11 at 08.29.49

CS: Você enxerga mudanças na forma dos adolescentes de hoje se relacionarem com a temática comparando com os jovens ou adolescentes de poucos anos atrás?

Lara: Mudança sempre há. Eu vejo que os jovens hoje em dia tem dificuldades tanto quanto a gente tinha. A diferença é: eles têm um acesso maior à informação e aí eles não sabem o que fazer com essa informação. Na minha época por exemplo, que não é tão distante assim, mas que eu não tinha facilmente acesso à internet, a informação chegava muito “peneirada”. Ou chegava pelos pais, ou pelos colegas de turma, pela escola ou pela televisão. Então eu vejo que hoje os jovens têm mais informação, mas o ele faz com isso?? Informação é completamente diferente de aprendizado, de conhecimento e de sabedoria. Se eu leio o jornal todos os dias, eu tenho informação rápida todos os dias. Mas o que eu faço com essa informação que eu leio do jornal? Transformá-la em conhecimento, em sabedoria, em “fazer”, é outra coisa. Não adianta nada eu ler jornal todos os dias e não fazer nada com essas informações que eu tenho. Fala-se de um jovem que consegue aprender matemática sozinho estudando pelo computador. Ele consegue? Consegue. É todo mundo que consegue? Não. Ele tem aulas de graça na internet? Tem. Mas o que a gente vem observando é que nem sempre essas facilidades todas conectam informações, conectar informação é transformá-la em conhecimento e aprendizagem. Uma dificuldade hoje em dia tanto dos jovens quanto dos pais é entender que essa conexão não se dá pura e simples pelo encontro do jovem com uma informação solta.

mind-tricks-1
CS: O que contribui e o que atrapalha na discussão do tema?

Lara: O que contribui é a disposição da pessoas em querer discutir, entrar em contato com o tema. Também contribui o fato de a gente ter mais informações disponíveis e aí de novo esse fator pode tanto ser uma contribuição, quanto pode atrapalhar muito (como falei anteriormente). Preconceitos, por incrível que pareça, contribuem, porque se eles se apresentam a gente consegue repensar. O que atrapalha é o não diálogo, o não querer conversar. O fato das escolas não abrirem espaço; veem a necessidade deste assunto ser conversado no cotidiano e simplesmente não conversam. O papel da escola não seria atrapalhar, silenciar, ignorar ou delegar à outros os assuntos relativos à vida. Os pais atrapalham quando eles fingem não ver, fingem não ouvir, fingem não estar junto nesse processo de sexualidade. Isso vale desde as questão da pré-adolescência (mudança de voz, mudança corporal, cabelo, faz a sobrancelha ou não faz? Pinta o cabelo ou não? Primeiro beijo, peito crescendo, está ganhando busto, etc). E está tudo bem também admitir que não dá conta. Os profissionais estão aí pra isso. Tem muitos pais que me dizem que não conseguem, que se atrapalham, que sentem medo de “errar”. Contem com os profissionais da saúde para isso. Sexualidade é Saúde. Muitos pais também falam “eu não precisei disso, por que ele precisa disso agora? As coisas vão se resolver”. Tudo bem, mas se temos a possibilidade de passar por isso de outro jeito, por que eu vou desejar que meu filho passe pela vida como eu passei? Sem falar que o filho é uma pessoa diferente dos pais!

CS: Quais os benefícios da discussão do tema para um adolescente?

Lara: Eu acho que essa discussão só tem ganhos. Para o adolescente e para sociedade. Inúmeras pesquisas apontam que quanto mais você conversa com seu filho sobre sexo, mais tarde eles se iniciam sexualmente. Isso significa que, à medida que meu filho traz dúvidas das mais diversas (começando pelas questões do primeiro beijo, do primeiro “namorico”, da menstruação, dos primeiro pelos…), e se eu começo a conversar com ele mais cedo sobre esses assuntos, mais tarde ele se inicia sexualmente. O que acontece com os nossos jovens? A gente acaba produzindo jovens que por si só querem conhecer e se “aventurar”. A gente produz neles a sensação do “enfrentamento”. A gente costuma falar: “O jovem é difícil né? Ele enfrentam” – a gente carimba um monte de coisa nos jovens. “É uma fase complicada” Eles são confusos” – Olha a quantidade de afirmações que a gente coloca na adolescência!! E o jovem que escapa dessas afirmações são os jovens que são tido como “bênçãos”. Então toda e qualquer tipo de discussão, se for para produzir encontro, pra ser mais agradável para os pais e para os adolescentes, só tem a ganhar! Os adultos têm muito à aprender com os jovens. A começar por esses rótulos! Eles não precisam disso.

CS: Pensando neste assunto, o que você falaria para os pais ou familiares de um adolescente?

Lara: Eu falaria que nós enquanto profissionais, nós estamos aqui abertos a qualquer pergunta, dúvida. Estamos aqui para sermos parceiros neste momento. A grande diferença é que muitos pais (principalmente quando descobrem que a gente trabalha com sexualidade) apontam o trabalho como desnecessário, acabam até ficando com medo mesmo sem conhecer. Acham que a gente vai ensinar coisas pros meninos, que a gente vai antecipar a vida dos meninos e aí não permitem que a gente mantenha um diálogo. Então eu falaria: antes de se posicionarem sobre essas questões que são novas, que eles procurem conhecer, conversar com os profissionais para entender. Tem inúmeros mitos em torno (de que a gente “incentiva” etc), mas são mitos. Quando alguns chegam pra conversar, já chegam com reclamações e dizendo o que eu não devo fazer, sem saber primeiro o que eu faço. Então cheguem junto. Compartilhem com o profissional como são essas questões com seus filhos. Em um mundo de “alertas” e “cuidados” a gente não vê quem na sociedade pode fortalecer uma rede de parcerias! A família muitas vezes se fecha em si mesma, como se fossem autossuficientes. As religiões têm buscado muito esse trabalho de sexualidade, o que é muito interessante! E estão entendendo que este é um assunto tranquilo que pode ser tratado com muito diálogo e crescimento. Isso faz com que cada vez mais essa tema possa ser pensado como mais uma tema! Eu falei das dúvidas, mas não é só relacionada à sexo. Tem jovem que pergunta, por exemplo, sobre comportamento. “O que eu acho dele sair com os amigos. Qual a idade certa?” ou “Eu não pinto minha unha de vermelho porque o menino da minha sala falou que unha vermelha é de puta!” Olha só que coisa delicada e que não necessariamente chega aos ouvidos dos pais. Pintar a unha de vermelho não tem nada a ver com sexo, e eles estão perguntando. Seria muito bom se os pais e os familiares entendessem o assunto da sexualidade como um assunto para a vida. Que vai trabalhar as relações que o jovem, relações amorosas, de namoro, de amizades, relações familiares, relações sociais de uma forma geral. Se os pais não colocassem tanta dificuldade, tanto mistério e peso num assunto que não é pra ser pesado, talvez muitas dúvidas que os jovens trazem seriam sanadas com muito mais tranquilidade. Sexualidade é um assunto que pensa a vida.

 

Lara Rocha Andrade é psicóloga com formação em Sexologia Clínica. Trabalha atualmente em um curso pré-vestibular em Vitória da Conquista.

lararochapsi@gmail.com

@psilararochas

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s