Psiquiatria infanto-juvenil: entrevista sobre o olhar de uma profissional da área

O Coletivo Ser tem tido também o propósito de mostrar pra vocês o trabalho da psicologia infanto juvenil e suas parcerias com outros profissionais que também trabalham com esse público.
Hoje é a vez da Alana Fajoli. Alana é psiquiatra, graduada em medicina pela EMESCAM. Possui residência médica em Psiquiatria pelo HUPE/UERJ e experiência com Psiquiatria Infantil em ambulatório especializado do CEMAS/VV de 2017 a 2018.

Na entrevista abaixo, Alana vai nos contar um pouco sobre as percepções que tem de suas experiências.

Coletivo ser (CS): Qual é a maior demanda que você tem percebido de crianças e adolescentes que procuram um psiquiatra?

Alana: No ambulatório especializado em Psiquiatria Infantil de um município da Grande Vitória em 1 ano de atendimento, pude perceber que a maior demanda de crianças e adolescentes foi a dificuldade no aprendizado, principalmente na infância, quando iniciavam a alfabetização. Os professores encaminhavam para avaliação pois a criança estava com dificuldade em aprender e ‘acompanhar a turma’, juntamente com esta queixa, frequentemente estavam associadas a dificuldade em manter a atenção nas atividades e inquietação psicomotora.

Outra demanda comum era a de heteroagressividade, tanto com os colegas da mesma idade, quanto com os pais e professores. Dificuldade em respeitar as regras e reações explosivas ao ser contrariado também foram demandas frequentes. Nos adolescentes foi possível observar maiores queixas em relação a humor deprimido ou irritado e ansiedade.

Coletivo Ser (CS): Quais são os diagnósticos mais comuns na clínica psiquiátrica do publico em questão?

Alana: Em relação a epidemiologia não foi realizado um estudo ou estatística formal para avaliar a questão. Ainda assim, foi possível observar como diagnósticos mais comuns na infância a Deficiência intelectual, o Transtorno específico da aprendizagem, enurese e TDAH. Já nos adolescentes, foi comum diagnósticos como Depressão e Transtorno de ansiedade generalizada.

Coletivo Ser (CS): O que você acha da medicalização para crianças e adolescentes?

Alana: A medicalização para crianças e adolescentes é uma abordagem da qual lançamos mão quando há necessidade, visto os prejuízos na vida do paciente. Assim como nos adultos, a avaliação do quadro psiquiátrico deve ser minuciosa e a prescrição de medicações cautelosa e responsável, visando a menor dose eficaz para o tratamento.

Coletivo Ser (CS): Como você entende a importância da parceria psicólogo/psiquiatra?

Alana: A parceria entre psicólogo e psiquiatra é de fundamental importância. Estudos mostram que o tratamento medicamentoso adjuvante com psicoterapia é a abordagem mais eficaz na maioria dos casos. Além disso, o tratamento dos casos na infância e adolescência envolve abordagem familiar e escolar, sendo o psicólogo um profissional agregador na intervenção multidisciplinar.

Coletivo Ser (CS): Caso uma criança ou adolescente seja diagnosticado com algum transtorno mental, quais atividades extras auxiliariam no desenvolvimento dele?

Alana: Auxiliam no desenvolvimento da criança ou adolescente diagnosticado com transtorno mental, além de psicoterapia e tratamento medicamentoso, atividades lúdicas, atividades ao ar livre, exercício físico, como natação, dança, aulas de música, pintura, atividades com auxílio da terapia ocupacional, reforço escolar com atendimento escolar especial e outras atividades que visem melhorar e desenvolver habilidades pessoais e sociais.  Concomitante a estas atividades, é necessário atendimento em conjunto com outros profissionais, como médicos de outras especialidades, odontólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, dentre outros de acordo com a demanda do paciente.

Coletivo Ser (CS): Quais são os grandes desafios em atender esse público?

Alana: Um dos grandes desafios em atender crianças e adolescentes é a abordagem familiar. Muitas vezes os pais apresentam demandas próprias projetadas na criança e possuem resistência em procurar ajuda profissional, desta forma, o tratamento da criança fica prejudicado. Outro desafio é a abordagem escolar, é muito importante que a equipe de professores e funcionários da escola entendam e conheçam os transtornos mentais, a fim de diminuir o estigma existente e estabelecer um trato adequado a estes alunos.

 

 

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