Parto, maternagem e amamentação. Isadora Lee Padilha nos conta sua experiência.

Mãe, doula, psicóloga.. Isadora Lee padilha é tudo isso é mais um pouco! Ou melhor: muito mais! Nesta entrevista  ela nos conta um pouco da sua trajetória enquanto doula, da sua gravidez, preparativos para a chegada do querido Samuel, parto e pós parto e como anda sua vida profissional.

Coletivo Ser (CS): Conte-nos um pouco do trabalho de uma doula e como você se apaixonou por isso, bem como os benefícios que teve durante e após sua gravidez.

Isadora: Durante a graduação em psicologia conheci um estudo sobre violência obstétrica, termo desconhecido para mim até então. Filha caçula em meio há três filhos, parto para mim era a via normal de nascimento, mal sabia que para isso ocorrer era preciso muita luta contra o sistema cesarista que violenta mulheres que decidem parir.

Foi ao descobrir o sofrimento que busquei o ativismo da humanização do nascimento. Depois de me aproximar do feminismo que pude perceber que a violência obstétrica é mais uma resultante do machismo que objetifica os corpos femininos e sendo assim podem intervir e violenta-los. Após imersão nesse mundo resolvi me inscrever no curso de imersão “Revelando doulas”. Foi transformador conhecer a potência que o trabalho das doulas tinha na mudança do cenário obstétrico em nosso país, e ainda mais o poder transformador de todo um cenário de machismo, pois o trabalho da doula é de empoderamento da mulher, em estimular e auxiliar a mulher a recuperar a força e confiança no seu corpo, um trabalho de resistência.

Após um ano de trabalho enquanto doula chegou a minha vez de gestar, parir e maternar. Saber de toda a teoria foi muito importante para a confiança que tive em meu corpo, tinha a certeza que ele estava pronto para esse processo.  Meu maior desafio foi trabalhar o meu emocional e abrir mão do controle. O trabalho junto a minha doula e toda equipe técnica que me assistia nessa fase foi muito importante. Eu lembrava de cada mulher que acompanhei e só pensava o quanto elas era maravilhosas e como era grata por ter acompanhado elas. Minha gestação foi tranquila e muito saudável, e meu parto foi transformador e renasci ali junto com meu filho.

Após o nascimento do meu filho vinha um novo e mais desafiador momento: a maternidade. Eu tinha muito medo do puerpério, de todas as questões emocionais que saltam em nós nessa fase da vida. Mas graças a uma rede de apoio maravilhosa foi tudo muito tranquilo e leve, o que não tornou mais fácil e menos desafiador, mas confiar no meu corpo para alimentar meu filho e lembra de todas as gerações de mulheres que a tantos séculos fazem isso me fortificou e sustentou em cada dificuldade.

 

 

CS: Durante a gravidez do Samuca, quais eram seus pensamentos, medos, angústias, desejos… O que foi fundamental?

Isa: Meu maior medo era não dar conta da minha vida após a maternidade. Eu engravidei em meio a um mestrado que exigia muito de mim e minha cabeça estava na geração de um filho. Até hoje isso é algo que me visita, e busco levar a vida mais simples e leve. A rede de apoio foi fundamental para eu dar conta dos cuidados do meu filho e de mim mesma. Não passei fome, nem qualquer necessidade pois tive uma linda rede para cuidar de mim para eu cuidar do meu filho.

 

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CS: E os preparativos para a chegada do Sumuel, como foram? Por que escolheu montar um quartinho baseado nos pressupostos de Montessori?

Isa: Eu e meu marido somos adeptos da simplicidade, nao achamos que as pessoas precisam de coisas. E para o nosso filho não seria diferente. Demos ênfase na assistência de profissionais capacitados e amorosos. Enxoval não subia a nossa cabeça, sabíamos que nosso filho só precisava de nosso respeito e amorAntes mesmo de engravidar já estudava a pedagogia científicas de Maria Montessori que conheci em um intercâmbio na Itália. O método tem alguns Pilares que são: Autoeducação; Educação como ciência; Educação Cósmica; Ambiente Preparado; Adulto Preparado; Criança Equilibrada. E é a partir deles que a gente se inspirou para construir o espaço para o Samuel que aos poucos vamos adaptando toda a casa, já que para a metodologia e para nós a casa é quem tem que se adaptar a criança e não ao contrário. Hoje com seis meses a gente já consegue colher os frutos de nossas apostas de educação e criação. É Maravilhoso acompanhar o desenvolvimento do Samuel tão saudável e livre para adquirir suas habilidades com alegria e paixão.

CS: Você teve um lindo parto domiciliar. Pode nos contar um pouco de como foi essa decisão e como foi na hora?

Isa: O parto domiciliar (PD) foi um sonho mas acima de tudo consequência de todo processo desde antes da gestação. O PD é indicado para gestantes de baixo risco (ou risco habitual) que foi o meu caso ao longo de toda a gestação. Construir um PD exige um acompanhamento sério e cuidadoso de uma equipe técnica composta por duas Parteiras ( enfermeiras obstétricas), e no meu caso também estavam nos assistindo um médico obstetra (que me assistiu no pré natal e era nosso back up para o caso de precisar de remoção para o hospital) e duas doulas nos apoiando física e emocionalmente. Parto domiciliar não é a todo custo nem inesperadamente, é um longo preparo e é necessário ter plano B e C. Meu único desejo era parir com respeito e cuidados mim e ao meu filho, o parto domiciliar é o melhor cenário para que meu desejo fosse realizado, mas acima de tudo eu queria passar por isso enquanto mulher dona do meu corpo e capaz de trazer eu mesma meu filho ao mundo. E assim foi, no dia 11 de junho de 2017 o dia mais transformador da minha vida, que eu, meu filho, meu marido renascemos, em nossa casa ao lado de nossa cama, com a presença do nosso cachorro, entre uma equipe séria, muito capacitada e amorosa.

Se tiverem interesse tem o relato do nascimento do Samuel em texto e fotos no link

E no Vimeo

CS: Você se recorda dos primeiros sentimentos e pensamentos que surgiram quando Samuel estava nos seus braços (seu e do Digo). O que vocês pais mais pensavam e sentiam?

Isa: Fisicamente uma uma sensação deliciosa, um relaxamento do corpo todo, muito gostoso. Parecia que eu tava pronta para aquilo tudo novamente, a gente sente todos os hormônios agirem. Depois só gratidão! Grata ao universo por ter me possibilitado passar por aquela experiência, grata ao meu filho por ter me escolhido sua mãe e ter trabalhado junto comigo no parto, grata ao meu companheiro por parir comigo, grata a equipe por ter me passado tanta segurança e cuidado de mim e da minha família com tanto cuidado.

Depois que tudo se acalmou a sensação de “jura que isso aconteceu comigo?” Isso ainda vem e volta na minha cabeça até hoje, aí olho pro meu filho e volta o sentimento de gratidão. Coisa mais louca e boa do mundo.

 

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CS: Como foi amamentar? Qual a importância disso para você enquanto mãe, doula e psicóloga?

Isa: Amamentação é outra batalha, maior até que parir. Vivemos em uma sociedade que a todo tempo desencoraja as mulheres em tudo! Assim como parir, amamentar é empoderador, pois os corpos das mulheres são objetificados e  nesse pensamento são feitos para dar prazer ao outro, logo os seios não podem alimentar ao filho mas sim serem capas de revista masculina. Além disso, amamentar é contrária à toda a indústria alimentícia que diz que seu leite é fraco então você precisa de um “complemento”. Enquanto a mídia diz que amamentar é natural logo não precisa aprender é só colocar o bebê no peito e pronto, e nisso as mamas ficam machucadas e torna-se um sofrimento para a mãe amamentar, e mesmo que a mãe queira tem vó, vizinha e médicos falando “dói mesmo, é sofrimento, é assim mesmo, toma aqui a chupeta para você descansar, deixa que eu dou uma mamadeira”. E nisso vem a solidão materna, que abandonada e julgada, não insiste na amamentação mesmo que fosse seu desejo.

Eu já conhecia esse cenário e não queria ser protagonista dessa história. Me capacitei antes e sempre foi meu sonho pessoal amamentar. Mas não foi fácil cada comentário do tipo “cadê a chupeta desse menino?” “Como assim não vai usar mamadeira?”. Bebês nascem sabendo sugar e não a mamar. Amamentar e mamar é aprendizado, procure uma consultora de aleitamento materno, procure o banco de leite. Mesmo com tudo isso sobrevivemos, eu e meu filho tivemos nossos seis meses de aleitamento materno exclusivo em livre demanda (sem mamadeira, sem chupeta, sem nenhum outro alimento), conforme preconizado pela OMS. Sei que somos privilegiados uma vez que a média brasileira é de apenas 54 dias de duração o aleitamento materno exclusivo. Sou muito grata a todo meu processo e pelas pessoas que me assistiram, uma equipe humanizada ajuda muito na criação do vínculo mamãe e bebê possibilitando uma melhor relação com a amamentação. Eu pretendo amamentar até no mínimo 2 anos conforme indicado pela OMS, o que é outra batalha eu sei, já que os mitos são muitos e a informação é pouca.

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CS: Você daria alguma sugestão/dica para as mamães que estão neste processo?

Isa: Rede de apoio é vida! Equipe informada e capacitada é vida! Procure uma equipe que esteja de acordo com o que você deseja. Não acredite nos mitos que nos desencorajam: mulheres sabem parir e bebês sabem nascer. Se queremos aprender uma profissão a gente busca estudar por que não estudar para sermos mães? Sou feminista e ativista da humanização do nascimento, o que significa que luto pelo direito de escolha da mulher baseada nas evidências científicas, no empoderamento e protagonismo feminino. Os medos são resultado de anos e anos de tabus e mitos enraizados. Tenha uma doula, ninguém precisa de uma para parir mas toda mulher merece ter uma doula.

CS: Agora que seu filho já tem 6 meses, como é a introdução alimentar?

Isa: Estamos apostando na introdução alimentar participativa por meio do método BLW (Baby-ledWeaning, em português: Desmame Guiado pelo Bebê). Dessa forma buscamos que nosso filho não apenas se alimente mas construa uma relação prazerosa e saudável com o alimento. Os alimentos são oferecidos em pedaços seguindo critérios de segurança e ergonomia, para que ele possa por conta própria levar o alimento até a boca, e coma como e o quanto quiser. Até um ano de idade sabemos que o leite é a principal fonte de nutrição do bebê logo não nos preocupamos com a quantidade que ele está ingerindo, nessa fase o objetivo é experienciar sabores, cores, aromas, texturas e também o comportamento social que fazer uma refeição.

 

CS: E como foi e é para você, deixar de atuar enquanto profissional psicóloga/doula e investir seu tempo inteiramente na maternagem? Quais são seus planos? Existe alguma dificuldade?

Isa: A gravidez veio em um momento onde estava engrenando em minhas profissões tanto de doula como de psicóloga clínica, no meio do meu mestrado, então foi muito difícil parar, tanto que consegui encerrar tudo dias antes do trabalho de parto iniciar que sei bem que foi quando eu relaxei e deixei a ocitocina agir. Mas a gestação veio também no momento em que eu mais desejei ter um filho, então eu e o meu companheiro, acreditando que não existe momento certo e sim momento em que desejamos, embarcamos juntos nessa viagem maluca.

Sempre soube que seria difícil conciliar a maternagem com profissão, mas não tinha a menor noção de como é delicado. Vejo mães em sofrimento por quererem voltar a vida de antes, eu penso que é impossível voltar a vida de antes, simplesmente porque a vida é outra, com outras necessidades e desejos. Tem sido desafiador esse momento de abrir mão de algumas coisas e construir novos caminhos. O mais difícil é ter que abrir mão de momentos com meu filho para poder me dedicar a outras coisas. Além do que, alguns espaços e tarefas não são pensadas para ter pessoas com filhos, os homens se dão bem nesses espaços porque socialmente a eles nada é cobrado na paternidade. Eu tenho um parceiro que está junto comigo na criação do nosso filho, que abriu mão de muitas atividades para se dedicar ao filho, mas não podemos negar que a sociedade nada cobra dele enquanto pai, inclusive a licença paternidade são míseros 20 dias (e isso é luxo no país onde obrigatório são apenas 5 dias corridos de licença paternidade).

Meu plano atual é concluir meu mestrado por uma questão de realização pessoal e afirmação. Eu estudo “as práticas educativas não sexistas” e acredito que a educação é um caminho para mudança do nosso cenário machista inclusive para que as novas gerações possam vivenciar a maternidade sem culpa e peso, e que tenhamos mais pais de verdade na criação das crianças.  E afirmação pois está claro que a academia não é lugar pra mães, mas eu quero que seja e vou lutar por esse espaço, ainda que hoje seja o meu maior desafio, pois estudar e se concentrar não é nada fácil quando se está cuidando e criando um bebê.

Além disso eu pretendo deixar de escanteio meu trabalho enquanto psicóloga clínica para me dedicar a um projeto que já estava sendo gerado antes mesmo do meu filho que é a construção de uma escola de educação infantil na proposta da pedagogia Montessori, que deve sair em breve na Grande Vitória.

E o trabalho da doulagem eu pretendo retornar quando for possível, uma vez que não tem tempo nem local para acontecer, o que se torna difícil enquanto meu filho for um bebê, mas aos poucos eu volto a ativa mas por enquanto vou fazendo meus trabalhos de apoio e empoderamento de gestantes e puérperas via redes sociais com minha página Germinari e entre minhas amigas.

Vale seguir: @canalisaedigo

Recomendações da Isa:
Link canal do youtube: encurtador.com.br/jsHPU

 

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