A potência da brincadeira

A experiência criativa começa com o viver criativo, manifestado primeiramente na brincadeira.  (WINNICOTT, 1975, P.139)

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Qual a importância da brincadeira? Num mundo onde a tecnologia tomou conta até mesmo da vida de pequenos bebês, ainda é necessário falar sobre a brincadeira? Sim! Não só necessário, como urgente!

Nos primeiros anos de vida, as crianças precisam manusear (isso inclui colocar na boca) um grande variedade de objetos para conhecê-los, ver o que podem fazer com eles, como se comportam no espaço, etc. Por isso, não é incomum você observar crianças de 1 ou 2 anos tirando de colocando objetos de um determinado lugar ou gaveta. Com o passar do tempo, elas começam a criar histórias, narrando o que observaram, o que imaginam e fantasiam.

Vários autores estudam a brincadeira. Segundo as autoras Goldschmied e Jackson (2006),

no segundo ano de vida, as crianças sentem um grande impulso de explorar e descobrir por si mesmas a maneira como os objetos se comportam no espaço quando são manipulados por elas. (p.148)

Para D. Winnicott, é no brincar “que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de crianção.” (1975, p.79) Segundo o autor, tal atividade é criativa e tem fundamental importância na constituição do eu e não-eu.

Em sua teoria do amadurecimento, Winnicott concebe que a criança pequena, ou o bebê, nos primeiros meses de vida, não tem separação entre si e o mundo, ou de si mesmo e seu cuidador primário, que em muitos casos é a própria mãe. É por meio de um complexo processo que este “descolamento” vai se fazendo e o bebê consegue diferenciar-se do mundo. A mãe desempenha por certo tempo o papel de ser o que o bebê tem a capacidade de encontrar, apresentando-lhe o mundo em pequenas doses. Aos poucos, o bebê, no estado de confiança com esse ambiente, se sente onipotente. “A confiança na mãe cria aqui um playground intermediário, onde a ideia da magia se origina, visto que o bebê, até certo ponto, experimenta onipotência.” (WINNICOTT, 1975, p.71)

O bebê chora e, quase que por mágica, encontra um peito, uma chupeta, um paninho, um colo. É como se o que ele estava necessitando naquele momento fosse criado quase que imediatamente, trazendo-lhe a ideia de que ele pode criar o mundo.

para o bebê (…)todo e qualquer pormenor de sua vida constitui exemplo do viver criativo. Todo objeto é um objeto ‘descoberto’. Dada a oportunidade, o bebê começa a viver criativamente e a utilizar objetos reais, para neles e com eles ser criativo. (WINNICOTT, 1975, p.141)

Podemos dizer então que quando falamos em brincadeira, estamos falando de saúde, pois uma criança que brinca, consegue aos poucos se diferenciar do mundo e dos outros, relacionando-se, criando seu EU e podendo produzir criativamente com e a partir das coisas do mundo. Professores da primeira infâncias funcionam ou ocupam um papel próximo ao das mães para os bebês, pois possibilitam e criam contextos a partir dos interesses das crianças (são como pistas que eles nos dão) no qual as crianças podem encontrar e descobrir objetos e as coisas do mundo, para com eles criar e se relacionar. No campo da clínica com crianças e mesmo com muitos adultos, o papel do terapeuta é, muitas vezes, ajudar o paciente a brincar.

Referências:

Donald Winnicott. O brincar e a Realidade, 1975 (link)

Elinor Goldschmied e Sonia Jackson. Educação de 0 a 3 anos: o atendimento em creche. 2006

Links e vídeo interessante sobre o assunto:

Território do brincar

 

Por Isabel Valli Espíndola, Psicóloga clínica (CRP 06/122184)

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